IA na educação: experiência na Ásia provoca reflexão sobre o que não podemos deixar de ensinar

No encerramento do primeiro dia do 6º Encontro FourC de Educadores, Juliana Storniolo compartilhou aprendizados de uma viagem à Ásia e provocou educadores a refletirem sobre pensamento crítico, aprendizagem e o papel humano em um mundo cada vez mais tecnológico

O avanço da Inteligência Artificial está transformando a educação, mas talvez uma das perguntas mais importantes deste momento não seja apenas como usar a tecnologia, e sim o que não podemos deixar que ela faça por nossos alunos.

Essa foi uma das reflexões que marcaram a palestra de Juliana Storniolo, no encerramento do primeiro dia do 6º Encontro FourC de Educadores, realizado pela FourC Bilingual Academy. A partir de uma recente viagem à Ásia, Juliana compartilhou experiências e aprendizados sobre o uso da Inteligência Artificial na educação e trouxe para o encontro uma discussão que ultrapassa ferramentas e plataformas: como preservar o pensamento, a autoria, a curiosidade, o desenvolvimento emocional e a capacidade de aprender em um cenário no qual respostas estão disponíveis em segundos.

A viagem aconteceu a convite de Sara Hughes, fundadora da FourC Bilingual Academy, e levou Juliana a conhecer instituições educacionais e conversar com pesquisadores, gestores e educadores na Coreia do Sul, China e Hong Kong.

Juliana contou que embarcou esperando encontrar respostas sobre tecnologias avançadas aplicadas à educação. Encontrou, porém, algo mais complexo. Mesmo em países reconhecidos pelo desenvolvimento tecnológico, escolas e universidades ainda estão construindo respostas para muitas das mesmas perguntas que desafiam educadores em outras partes do mundo: quando a IA contribui para a aprendizagem? Quando ela facilita demais o caminho? Como avaliar o que o estudante realmente aprendeu? E quais capacidades humanas precisam ser ainda mais valorizadas?

“A inteligência artificial não é o nosso propósito. O nosso propósito é a educação”, destacou durante a palestra.



Quando facilitar demais pode significar aprender menos

Entre as experiências apresentadas esteve a visita a uma universidade voltada à formação e à pesquisa em tecnologia. Embora a Inteligência Artificial seja utilizada e incentivada em diferentes atividades, a instituição optou por manter avaliações presenciais e analógicas em determinados contextos, justamente para compreender o que o estudante consegue produzir sem a mediação da tecnologia.

Em outra instituição, pesquisas sobre aprendizagem e neurociência colocaram em discussão um ponto especialmente relevante: ao facilitar excessivamente determinadas etapas do processo cognitivo, a tecnologia pode reduzir o esforço necessário para construir uma aprendizagem mais profunda.

A questão levou Juliana a propor aos educadores uma mudança de olhar. Diante de um trabalho bem executado, talvez já não seja suficiente perguntar apenas qual foi o resultado. É preciso compreender o processo: como o aluno chegou até ali? O que pensou? Que escolhas fez? O que aprendeu? E, principalmente, o que deixou de pensar ao utilizar a IA?

Essa perspectiva dialoga diretamente com práticas que fazem parte da proposta pedagógica da FourC, como tornar o pensamento dos alunos visível, estimular perguntas, desenvolver habilidades executivas e criar oportunidades para que eles reflitam sobre a própria aprendizagem.

Na era da IA, segundo Juliana, a metacognição, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento, ganha ainda mais importância. Planejar, criar, organizar, comparar, questionar, justificar escolhas e compreender como se chegou a determinado resultado são capacidades que não podem simplesmente ser transferidas para uma ferramenta.



Tecnologia com propósito

A viagem também mostrou que não existe uma única maneira de incorporar a Inteligência Artificial à educação.

Em uma das escolas visitadas na China, voltada ao atendimento de filhos de famílias migrantes, Juliana encontrou uma proposta fortemente baseada no cuidado e no pertencimento. As crianças têm acesso à tecnologia, tablets e Inteligência Artificial, mas convivem também com práticas como leitura diária em livros físicos, restrição ao uso do celular durante o dia e uma rotina que valoriza o bem-estar emocional.

Em outra instituição, a Moonshot, a IA aparece associada ao desenvolvimento de competências e à aprendizagem baseada em projetos. Juliana relatou o encontro com um estudante de 18 anos que utilizava Inteligência Artificial para aprender química, desenvolver moléculas em 3D, criar um robô para demonstrar algoritmos e construir um jogo de vocabulário.

O que chamou a atenção, porém, não foi simplesmente a quantidade de tecnologia utilizada. Foi a intencionalidade.

“Ele sabia o porquê que estava usando a inteligência artificial”, contou Juliana. Em vez de utilizá-la passivamente para obter respostas, o jovem recorria à tecnologia para resolver problemas, investigar possibilidades e construir soluções.



Quanto mais tecnológico, mais humano

Em meio às visitas a instituições altamente tecnológicas, outra descoberta ganhou espaço: a preocupação com a formação humana.

Em uma escola de Ensino Fundamental, diante da pergunta sobre o risco de crianças saírem dali sem dominar suficientemente a tecnologia, a diretora explicou que a instituição tinha acesso aos recursos tecnológicos, mas sua maior preocupação era formar seres humanos.

Já em Hong Kong, Juliana encontrou discussões sobre um currículo que preserve a infância e ensine as crianças a pensar antes mesmo de colocá-las diante da Inteligência Artificial. Compreender, comparar, questionar e escolher passam a ser parte da preparação para que, no futuro, esses alunos consigam se relacionar criticamente com a tecnologia.

Foi a partir dessas experiências que Juliana trouxe ao Encontro FourC uma das sínteses mais provocativas da palestra:

“Quanto mais tecnológico, mais o ensino se torna artesanal.”

Artesanal no sentido do cuidado, da escolha e do olhar individual. A Inteligência Artificial pode automatizar tarefas, apoiar planejamentos, auxiliar correções e liberar o educador de atividades burocráticas. Mas transformar esse tempo em mais atenção ao aluno depende de intencionalidade pedagógica.

A tecnologia pode ajudar a personalizar caminhos e ampliar possibilidades. Mas perceber o que cada aluno precisa, compreender como ele aprende, provocar uma pergunta, reconhecer uma dificuldade ou decidir quando determinada “pedra” do caminho deve ser retirada, e quando ela precisa permanecer para que haja aprendizagem, continua sendo uma responsabilidade do educador.



O caminho até a compreensão

Ao encerrar a palestra, Juliana retomou a imagem das “pedras no rio”, que surgiu em uma conversa com Sara Hughes após seu retorno ao Brasil. A viagem, explicou, funcionou como uma oportunidade de “baixar o nível da água” e enxergar com mais clareza questões que já estavam presentes na educação, mas que a chegada da IA tornou mais visíveis.

Algumas pedras precisam ser retiradas: barreiras que excluem, tarefas que não ensinam e esforços que não geram aprendizagem. Outras, porém, fazem parte do próprio processo de aprender.

Duvidar, errar, comparar, escolher, criar, rever e aprender são caminhos que ninguém pode percorrer pelo aluno.

E foi com essa reflexão que o primeiro dia do 6º Encontro FourC de Educadores chegou ao fim: diante de uma tecnologia capaz de oferecer respostas cada vez mais rapidamente, o desafio da educação talvez esteja justamente em proteger aquilo que acontece antes da resposta, o caminho até a compreensão.

Como sintetizou Juliana ao final da apresentação: “A tecnologia pode transformar aquilo que somos capazes de fazer, mas continua sendo nossa responsabilidade decidir para quê.”


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