Machosfera na adolescência: quando o algoritmo entra na conversa

Expressões que surgem em uma brincadeira, comentários sobre meninas e meninos, conteúdos que aparecem no feed ou até a dificuldade de lidar com um “não”. Como família e escola podem ajudar adolescentes a desenvolver um olhar mais crítico para as mensagens que recebem todos os dias?

“Isso não é coisa de menina.” “Menino não chora.” “Ela é muito fraca para jogar.” “Se ele insistir, ela acaba aceitando.”

Frases como essas podem parecer pequenas, mas dizem muito sobre as referências que crianças e adolescentes estão construindo sobre gênero, relacionamentos e comportamento. E, hoje, essa construção não acontece apenas em casa, na escola ou entre amigos. Ela também passa pelas telas.

É nesse contexto que ganha espaço a discussão sobre a machosfera — conjunto de comunidades, perfis, fóruns e canais online voltados ao universo masculino que, em parte de seus conteúdos, reforçam ideias rígidas sobre o que significa “ser homem”, sobre relacionamentos e até discursos de inferiorização das mulheres.

Para a psicóloga escolar da FourC Bilingual Academy, Luciane Costa, algumas dessas referências já aparecem cada vez mais cedo no vocabulário e nas relações entre os estudantes.

“Nós percebemos o vocabulário que a criança vai trazendo. Então, tentamos compreender o que é isso? De onde vem? Onde você ouviu? Você compreende o que significa?”, explicou.

Mais do que perguntar apenas “meu filho está vendo esse tipo de conteúdo?”, é importante compreender: “como ele está interpretando aquilo que vê?”

Pequenos sinais, boas perguntas

A influência nem sempre aparece em grandes manifestações. Pode estar em uma brincadeira que exclui meninas, em comentários sobre o corpo de uma colega, na ideia de que um menino precisa insistir mesmo depois de ouvir um “não” ou na dificuldade de demonstrar tristeza porque aprendeu que meninos precisam ser fortes.

“São pequenas coisas”, observa Luciane. Justamente por isso, famílias e educadores precisam estar atentos à linguagem, aos comportamentos e às relações que se estabelecem.

Mas atenção não significa apenas corrigir. Muitas vezes, perguntar pode ser mais educativo:

“De onde você ouviu isso?”

“O que essa expressão significa para você?”

“Por que você pensa dessa forma?”

“Como você acha que a outra pessoa se sente ao ouvir isso?”

As perguntas convidam o adolescente a sair da repetição automática e refletir sobre aquilo que diz, faz e consome.

Meninos também precisam dessa conversa

Discutir gênero não significa olhar apenas para as meninas. Meninos também crescem cercados por expectativas: precisam ser fortes, competitivos, seguros e pouco emotivos. Demonstrar medo, tristeza ou vulnerabilidade ainda pode ser interpretado como fraqueza. 

Luciane resume essa reflexão de maneira simples: “O sentir é do humano e não é atrelado a gênero”.

Da mesma forma que meninas não precisam estar restritas aos papéis de delicadeza e passividade, meninos também precisam ter espaço para expressar sentimentos, desenvolver empatia e construir outras referências de masculinidade.

E os adultos fazem parte desse processo. Expressões como “homem não chora”, “isso é coisa de menina” ou “tinha que ser mulher” podem parecer banais, mas ajudam a reforçar estereótipos que depois tentamos desconstruir.

Ensinar a questionar

Adolescentes recebem diariamente conteúdos de influenciadores, vídeos, memes, jogos e redes sociais, muitas vezes sem sequer procurá-los. Por isso, simplesmente classificar determinado conteúdo como “bom” ou “ruim” pode não ser suficiente. O desafio é oferecer repertório para que o próprio jovem aprenda a questionar:

Quem está falando? Que mensagem está sendo transmitida? Por que esse conteúdo provoca tantas reações? Eu concordo com isso? Por quê?

Na FourC, esse exercício se conecta diretamente a uma competência essencial na formação dos estudantes: o pensamento crítico.

“A primeira coisa é ajudar o outro a tomar consciência, ajudar a questionar. Por que você está fazendo isso? Por que você está escolhendo isso?”, explica Luciane.

Para ampliar as ferramentas utilizadas nessas conversas, Luciane e a educadora da FourC, Suleima, participam de uma formação do Movimento Atreva-se, que utiliza jogos como recurso para promover, de forma lúdica, reflexões com adolescentes sobre papéis de gênero, relacionamentos e violência de gênero.

A proposta reforça uma ideia importante: educar não significa oferecer todas as respostas, mas criar espaços para que novas perguntas e perspectivas possam surgir.

Em um mundo no qual algoritmos também participam da construção de referências dos jovens, escola e família talvez não consigam controlar tudo o que chega às telas. E esse nem precisa ser o objetivo.

Podem, porém, ajudá-los a desenvolver algo muito mais duradouro: repertório para observar, interpretar, questionar e fazer escolhas mais conscientes.

Para continuar essa conversa em casa

Uma sugestão para as famílias é o material “No Mesmo Time – Guia de Conversa para Pais e Responsáveis: A Machosfera”, versão brasileira desenvolvida pela ONU Mulheres Brasil em parceria com o UNICEF. O material reúne orientações e perguntas práticas para conversar com crianças e adolescentes sobre conteúdos online, masculinidade e pensamento crítico.

Acesse o guia aqui.

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